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sábado, 5 de maio de 2012

Fala e direi quem és!


A primeira vez que li esta frase fiquei com um misto de quebra de expectativa – vulgo confusão – e a impressão de que a frase trazia mais informação do que a simples percepção de uma primeira leitura. E o texto se revela, levando-nos a seguir suas pistas...
De repente, em uma situação do cotidiano da maioria de nós, se não todos, encontramos pessoas que dizem coisas, na brincadeira, que deixam uma sensação de que há mais do que uma brincadeira. E o que isso tem a ver com a frase?! Vamos seguir o método “Jack”, por partes...

Sabe quando uma pessoa diz uma frase em tom de brincadeira, rindo, mas que só ela acha graça da colocação que fez?! E mais, se você tirar o sorriso da pessoa e a tentativa de fazer graça, você obtém uma informação que poderia ser considerada uma agressão a você?! Junte a isso a informação de que a pessoa que disse a frase tem dificuldade de guardar para si o que pensa, alguém que quer, o tempo inteiro, dizer o que pensa e corrigir o que acha errado, enfim, precisa “impor” o que pensa sobre qualquer assunto. Considerando que dizer algo desagradável para alguém nem sempre é bem visto, o recurso é dizer sem ter que se indispor diretamente com a pessoa. Em caso de reação negativa... Simples: “Foi só uma brincadeira”!

A pessoa que “sofre” a brincadeira pode reagir de diversas formas: não perceber e apenas sentir uma sensação estranha no ar, perceber e entrar na festa da “brincadeira” fazendo um comentário ligeiramente mordaz, perceber e não revidar, perceber e revidar. O grande problema para as pessoas que são cuidadosas ao interpretar as intenções dos outros é o receio de errar na leitura dessas intenções. A Análise do Discurso teoriza que não existe discurso sem intenção – em outras palavras, tudo que falamos está completamente repleto de intenção de comunicar algo, e o texto e seu contexto são importantes para entender qual.

Esse tipo de brincadeira deixa a mesma sensação da frase da imagem: tem algo errado. O que está errado é alguém tentar dizer algo desagradável que pensa sobre nós em um tom que não convence... Se alguém disser algo em tom de brincadeira que parece estranho, que tirando o riso dela e tom de brincadeira não convence e soa como uma ofensa para você, não vacile, deixe que a outra pessoa saiba que ofensa nem em brincadeira tem graça. 

terça-feira, 23 de agosto de 2011

By plane

É comum no ser humano imaginar aquilo que ouve. Exatamente por isso rimos quando alguém nos descreve uma situação engraçada; ficamos espantados diante de certas descrições de situações perigosas, enfim, as emoções nos acompanham juntamente com a imaginação enquanto falamos ou ouvimos. Em geral, é assim! Deve ter sido por isso que uma senhorinha, expectadora do Halley duas vezes, se contorcia, tremia e fechava os olhos logo após ouvir as instruções de voo a bordo de uma aeronave. Você pode se perguntar: “como assim?”. Simples! Ela ouviu aquela parte de “[...] em caso de pouso na água, seus assentos são flutuantes”. Quem fica confortável ouvindo isso?! As perguntas que não calam são: “Em que aeroporto o pouso é aquático?” “Eu estou indo para lá?” Logo em seguida, a imagem cola na mente... Disso para o desespero é um passo. 

Pensando em todos os expectadores do Halley duas vezes e naqueles que nem viram ainda, mas que querem ver um dia, eu tenho uma sugestão para as companhias aéreas: mudem o texto para “Ladies and gentlemen – incluindo o texto em inglês [...] como não iremos pousar na água, vocês não precisarão utilizar seus assentos que, por acaso, são flutuantes... e blá, blá, blá”.

Também aproveitarei para sugerir à TAM que peça o número do telefone de quem irá nos buscar no aeroporto explicando que, no caso de faltar sanduíche a bordo, eles ligarão avisando para prepararem um café, almoço ou jantar reforçado para nos esperar... Que outro motivo eles teriam para nos pedir um telefone de emergência?!

Por ora... Continuem todos tendo uma boa viagem!!!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Quem diz o que quer...

Li o texto de um [1]escritor que expressava sua indignação pela falta de compreensão de seus leitores quanto a suas afirmações. Dizia: “Como explicar que não perdi a fé, que não apostatei, que não estou na ladeira do inferno e que não sou um Belzebu? Diante de juízos subjetivos, melhor calar. [...] Como justificar-me diante da presunção de que não há outro caminho para a espiritualidade que não seja o pacotão doutrinário, que os evangélicos se consideram legítimos guardiões?”   

Na primeira frase, a pergunta revela também uma afirmação, porque o leitor entende que houve, em algum momento anterior ao texto, uma afirmação que conduziu à conclusão de que essa pessoa perdeu a fé, se não com as mesmas palavras expressas por ele, com outras que o levou a essa conclusão. Até aí, nenhum problema, afinal concluir que alguém perdeu a fé é uma possibilidade quando aquilo que a pessoa diz não condiz com o que é esperado por aquele que analisa o [2]texto. O leitor vai interpretar o que lê a partir do seu repertório, é uma das questões da “lei natural da leitura”.

Logo em seguida, o autor expressa insatisfação pela interpretação que tem sido dada aos seus textos e, por isso, afirma optar por se calar. Mas, essa afirmação não é tomada ao pé da letra uma vez que o texto continua, e continua mantendo a temática inicial. Na verdade, uma possibilidade de leitura dessa frase seria: “se eu não conseguir dizer o que quero, já vou me justificando que não disse nada”.

A outra pergunta que segue é bem interessante, porque o escritor faz exatamente o que acabou de criticar: com uma pergunta, critica severamente aqueles que não concordam com suas afirmações. Ou seja, continuando nesse bate e rebate, acabamos em textos sem saída - o leitor que não concorda com o escritor que, por sua vez, não concorda que o leitor não concorde com ele.

[3]Mario de Andrade disse: “Escrevo sem pensar tudo o que meu inconsciente grita. Penso depois, não só para corrigir, mas para justificar o que escrevi”. Gosto dessa afirmação do Mario, porque, ao abrir a possibilidade de corrigir e justificar, ele deixa claro que o outro também pode ter alguma razão. Eu gosto de pensar que somos livres para concordar e discordar sem precisar entrar em guerra...


[1] O nome do autor não é mencionado porque este blog se destina a procurar possibilidades de leitura, o que mais nos interessa é o texto; só mencionando o escritor se for como recomendação de leitura ou para localizar o leitor.
[2] Entenda por texto toda e qualquer expressão comunicativa.
[3] Escritor modernista (1893-1945).

segunda-feira, 28 de março de 2011

Twittendo

Estava eu passando pelo twitter quando me deparei com essa citação: Não importa o que a vida fez de você, importa o que você fez com o que a vida fez de você. [Sartre] - na citação de alguém que surpreende pela escolha do filósofo.

Quem foi Sartre? Além de um fenômeno intelectual, podemos dizer que ele viveu sua vida extravagante como quis e morreu em miséria material e espiritual. Também, fé não foi algo que cultivou, assim como também não guardou do que ganhou nem para pagar a conta de telefone, que estava cortado quando passou mal e precisou de socorro nos seus últimos dias de vida. Suas muitas mulheres talvez tenham feito melhor uso do seu dinheiro... 

Deixando de lado a escolha de quem citou e o autor da frase, vamos ao que informa, ou deforma: o texto. No trecho “o que a vida fez de você”, parece dar à vida a capacidade de agir no indivíduo de forma a determinar o que ele se torna. O sentido mais próximo para “vida” parece ser do Houaiss: o conjunto dos acontecimentos mais relevantes na existência de alguém. Mas, segundo o texto, isso não é o mais importante, e sim, o que o indivíduo fez com isso. Ora, se é a vida que determina o que vai ser ou deixar de ser no indivíduo, então ele, de fato, não opera no plano de ações, mas de recepção das ações, o que, é claro, não o impede de reagir. Mas dizer que os acontecimentos mais relevantes não importam parece estranho, já que a base da ação do indivíduo está exatamente no repertório que a vida lhe fornece.

Outro detalhe é que “fez” é Pretérito Perfeito do verbo “fazer”, o que implica dizer que a ação foi concluída. Ora, como a segunda parte também está no mesmo tempo e modo verbal, está tudo acabado para “você”. Ou o tradutor não foi fiel ao texto original em francês ou a frase é para quem já morreu, a menos que você seja bom em aprender com os erros e/ou acertos dos outros e entenda “você” como o morto... Mas como é filosofia, não importa ser prático, basta ser bonito! Ou não...