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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Aprenda a reconhecer o engano

A técnica de distorcer ou torcer os fatos em favor de si mesmo é muito utilizada por líderes que trabalham única e exclusivamente em favor próprio. É preciso saber identificar, no discurso, esse tipo de estratégia para não se deixar levar por palavras bonitas, mas que não refletem a verdade por inteiro.


Alguns exemplos de técnica discursiva que não apresentam os fatos de forma íntegra: 

1. Frases ambíguas - dizer uma coisa que também pode significar outra.
Exemplo: Um político diz "Eu sou contra os impostos que são danosos para a economia." - Ele é contra todos os impostos ou apenas aqueles que são danosos para a economia?! Em geral, ele apenas tenta conquistar o ouvinte dizendo o que vai ser bem aceito.

2. Escolha dos elementos - utilizar no discurso apenas o que favorece sua opinião.
Exemplo: Uma indústria farmacêutica escolhe cem médicos que são favoráveis ao uso de determinado medicamento para divulgar seu produto. E a opinião dos demais? Essa não precisa ser divulgada, porque é desfavorável.

3. Não negar negando - quando a fala nega a própria ideia de negar.
Exemplo: O diretor de uma empresa, em um momento de crise, diz que não tem intenção de demitir funcionários. Ele não diz que não irá demitir, ele diz que não tem planos. Depois, se ele demitir, não estava nos planos. O importante é que os funcionários se acalmem no momento do seu discurso.

4. Falar na voz passiva - é quando alguém enfatiza o fato e não o autor, especialmente se o autor for o próprio orador.
Exemplo: O gestor de um departamento comete erros nas decisões e os resultados são ruins; na reunião de prestação de contas, ele diz "Erros foram cometidos e tivemos alguns resultados ruins." Ele não assume suas ações dizendo "Eu cometi erros..."


Aprender a identificar essas técnicas é importante para não se deixar enganar.

Imagem: http://bettymillerblog.com/how-to-not-be-deceived/

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Vestir a camisa

“Vestir a camisa” é uma expressão muito comum, especialmente se referindo à relação do empregado para com a empresa em que trabalha. “Vestir a camisa” quer dizer “comprometer-se com”.  E para que isso aconteça é preciso que o empregado se sinta como parte de um time. Se isso não acontece, a situação já tende a se complicar. É preciso acreditar que faz parte do grupo e compreender o objetivo de tanto esforço. Um fator complicador é que, algumas vezes, a empresa tem um perfil que não se encaixa no empregado. Para manter o time no foco é preciso que a empresa selecione pessoas com o perfil que seja adaptável ao seu plano de trabalho. 

Um exemplo que pode ilustrar a ideia do perfil empresa/funcionário é o trabalho das equipes de voo das companhias aéreas. Até algum tempo atrás era comum a formalidade nos comunicados feitos durante a viagem. A Webjet, ao contrário disso, entrou no mercado com uma proposta de descontração, fazendo comunicados ou dando instruções com uma mescla de humor, porém, não são todos os funcionários que conseguem encontrar o tom que a empresa se propõe a assumir. Outros, porém, conseguem se superar, como foi o caso de um comandante que saiu com estas pérolas em um voo de São Paulo para o Rio de Janeiro:

“Previsão de pequena turbulência de vento vindo da direita para esquerda, suficiente apenas para embalar seu soninho”;

O Rio de Janeiro está com o céu ligeiramente nublado, com nuvens escuras, também conhecidas como poluição”;

Falando sobre alguns pontos turísticos do Rio de Janeiro: “a Pedra da Gávea é o lugar onde pessoas pulam de asa delta, parapente e, de vez em quando, alguns malucos pulam sem nada”;


Sobre a igreja da Penha: "O carioca 'e(x)perto' faz uma promessa e, se alcançar o pedido, manda a sogra subir de joelhos";

“A temperatura de fora da aeronave está em 50 graus Celcius negativos. Aconselho a que permaneçam dentro do avião”.

O discurso descontraído em um ambiente que gera tensões para alguns é uma estratégia interessante, mas nem todos os funcionários responderão à altura do esperado, por questões de personalidade ou outras. Aqueles que têm uma veia humorística acentuada, no entanto, se sentirão bem à vontade usando seu verdadeiro potencial, o que é bem mais interessante do que se meter em uma “camisa de força”...

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Reclamação de um ateu

Recebi dois links de vídeos que uma leitora me enviou para saber minha opinião. Um deles, eu ouvi com sacrifício, porque eu tenho grande dificuldade de lidar com radicalismos, de qualquer origem, mas é sempre proveitoso analisar opiniões, confrontar nossas próprias ideias e tirar o que, na opinião do receptor, for bom. O vídeo era um desabafo de um ateu indignado porque um prefeito instituiu o Ensino Religioso nas escolas de sua cidade.

Há uma ideia errada que circula na sociedade, que é achar que todo ateu é [1]inteligente, e que é por causa do excesso de inteligência que ele não crê em Deus. Como, para algumas pessoas, o conceito de Deus não é inteligível, não cabe em uma “mente superior”. Eu arriscaria dizer que o próprio ateu pode pensar que é o supra summu do conhecimento e, por isso, eliminou do seu repertório essa coisa prosaica de fé. É claro que não é o excesso de inteligência que impede uma pessoa de aceitar crer ou não crer. Há um conjunto de fatores que contribuem para uma pessoa fazer essa escolha, que pode ter forte participação da inteligência... Ou não! Também diria Caetano que “Narciso acha feio o que não é espelho”[2]. Fatalmente o ateu vai pintar o religioso de “diabo” e o religioso simplesmente eliminará a possibilidade de existência do ateu. É isso que torna o verso de Caetano universal: reflete a natureza humana ou, talvez, desumana. 

Não indico o tal link porque o autor trata com desrespeito qualquer pessoa que não concorde com ele. O interessante do vídeo é o fato do autor sugerir que aceitaria o ensino religioso nas escolas se fosse levado como história das religiões. É singela a forma inocente como ele faz a sugestão, porque até a pessoa com a menor carga de inteligência pode saber que não há discurso sem intenção. Quem faz a história é o historiador e não os fatos. Tanto é assim que, no passado de muitos de nós, Pedro Álvares Cabral era o descobridor e praticamente “o salvador” do Brasil, Tiradentes era a imagem da salvação... E por aí vai. Hoje, outros historiadores contam outras histórias... Mas sempre é possível que haja grupos ou pessoas que trabalhem pela informação, é difícil encontrar, porém, tudo é possível ao que crê. Um bom exemplo disso é a revista História das Religiões, publicada recentemente pela Editora Abril; também o sociólogo francês Émile Durkheim apresenta ideias interessantes de seus estudos sobre o fenômeno religioso.

Na minha experiência de vida, encontrei dois tipos de ateus: aquele que tem algum problema não resolvido com a questão religiosa, revolta pelo que chamaria de ausência de Deus em momentos difíceis de sua vida - e esse tipo, em geral, fala de religião com desprezo; e o outro tipo é o bem resolvido, esse é o tipo de pessoa que lida bem com sua maneira de pensar, não levanta bandeiras, simplesmente tem opinião firme. De qualquer maneira, o ateu é uma pessoa de extrema fé, porque é preciso ter muita fé para olhar as leis da natureza, olhar a si mesmo, não ter a menor ideia de onde veio tudo isso nem para onde vai e mesmo assim não cogitar a possibilidade de uma inteligência superior no comando disso tudo – mesmo que a explicação para essa postura seja a podridão das sociedades.

Sobre a podridão das sociedades, precisamos reconhecer que a direção de uma nação está principalmente nas mãos do governo que gera recursos para projetos, cria leis etc. e nas mãos da mídia que diz o que quer, como quer, no momento que quer. O povo recebe tudo, a maioria assimila porque é bombardeado de todos os lados e fica valendo o “Se não posso vencê-los, junto-me a eles”. O resultado disso em uma nação onde impera o mau caráter é uma sociedade perversa. Todos os sistemas ficam corrompidos: sistema de saúde, político, educacional, religioso... É comum atacar os sistemas como se eles se fizessem sozinhos. Sabemos que não é assim. Sabemos que pessoas criam sistemas corruptos. Os discursos estão sempre atacando os sistemas, e o que melhora? Nada. É preciso corrigir as fontes: governo e mídia.

O vídeo em questão também mostra algo muito sério: a manifestação da intolerância. O jovem fala sobre intolerância religiosa com uma postura e um discurso constituído pela intolerância. Certamente muitos irão gostar, apoiar e atirar mais algumas pedras nos “loucos religiosos”. O rapaz chega a dizer que se uma família ensinasse um credo para seus filhos deveria receber visita do conselho tutelar – melhor nem comentar isso. Como bem disse alguém em um blog a respeito do modo pragmático de resolver as coisas: “A verdade não tem mais de ser buscada; ela se encontra em nós mesmos pronta para ser usada e sem objeção alguma”[3]. Que pena para quem pensa e vive assim, porque só tem a si mesmo como referência. O mundo de uma pessoa só é muito pequeno... E o mundo de muitas pessoas há de enfrentar suas diferenças...



[1] 1. faculdade de conhecer, compreender e aprender
2. conjunto de funções psíquicas e psicofisiológicas que contribuem para o conhecimento, para a compreensão da natureza das coisas e do significado dos fatos
3 Rubrica: psicologia.
   capacidade de apreender e organizar os dados de uma situação, em circunstâncias para as quais de nada servem o instinto, a aprendizagem e o hábito; capacidade de resolver problemas e empenhar-se em processos de pensamento abstrato
(Houaiss on line)
[2] Música - Sampa.
[3] http://suprasummu.blogspot.com/ - consultado em 01 abr 2011.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A mídia manipula você?

Achei interessante notar, claramente, o discurso tendencioso do UOL. Duas notícias na mesma página. A primeira, lá no cantinho entre muitas outras notícias, com uma foto minúscula, falava da manifestação cristã de 20 mil pessoas – sem essa última informação, hoje (01/06/11), em Brasília. A outra, em destaque, no início da página, assim como tem lugar as notícias das paradas gays:

1. “Grupo organiza ''Marcha Cristã'' em Brasília para protestar contra o projeto que criminaliza a homofobia no Brasil.”

2. Modelo transexual [...] desfila de "engana-mamãe" no Fashion Rio.”

Aspectos discursivos das duas notícias: 

- a primeira refere-se a “grupo” sem especificação alguma, sem nome, logo, sem identidade; a segunda fornece a profissão, a preferência sexual e o nome, que eu optei por não mencionar, o que revela a intenção de propagar de forma a tornar conhecido;

- a primeira utiliza o verbo “organiza”, que não expressa necessariamente uma realização; na segunda, o verbo é “desfila”, que certamente apresenta o glamour da ação praticada;

- as expressões entre aspas são também reveladoras, porque elas indicam expressões que ocupam o lugar da não palavra, aquela que é usada na ausência de um termo que seja próprio; nesse caso, a expressão “Marcha Cristã” é colocada no mesmo plano de “engana-mamãe”;

- para fechar com chave de ouro a preferência do site, na notícia sobre a Marcha Cristã, está escrito que o propósito é “protestar contra o projeto que criminaliza a homofobia no Brasil” – opa, opa, opa... Faltou informação para o redator, porque o objetivo era marchar contra a lei que obriga todo cidadão a ser defensor do homossexualismo como preferência sexual prioritária... Quanta diferença!!!

Se isso acontece em uma página pessoal, é natural, mas, convenhamos, é um site que tem todo tipo de leitor; devia ter mais profissionalismo e respeitar a tão propagada diferença. 

quarta-feira, 16 de março de 2011

O melhor ainda está por vir

O título deste texto talvez sugira mais bênçãos na próxima esquina, mas, desapontando a expectativa, não é essa a ideia. Pensando em discurso – o pensamento por trás da estruturação das palavras – percebemos que uma forma comum de apresentar uma nova ação ou pensamento é negando o valor do que estava estabelecido como prática ou conhecimento.

Um exemplo dessa estratégia é a apresentação de evangelização no carnaval como a única possibilidade possível de atividade. Até alguns anos atrás, era comum as igrejas se reunirem para um “retiro”, ou acampamento, em que o tempo era aproveitado para crescimento pessoal ou evangelização. Talvez nem todos usassem para isso; algumas pessoas reclamam que o objetivo de alguns desses encontros era a diversão pura e simples. Qualquer que tenha sido ou se tornado a motivação para certos grupos se afastarem da festa, o fato é que aqueles que estão desenvolvendo novas atividades atribuem negligência por parte dos que mantêm a prática antiga. 

Essa forma de estabelecimento de uma prática ou ideia não é novidade. Políticos usam esse critério em suas campanhas. Falam mal do candidato anterior para mostrar que podem fazer melhor. Alguns pesquisadores da área teórica mostram as falhas de teorias anteriores para estabelecerem outras. O fato é que, em geral, as “novas” práticas ou teorias fazem uso de tudo que viu até o momento para adaptar e então sugerir algo que venha com nova roupagem, mas que refletem o que foi feito, ou uma oposição que nada mais é que o contraste do existente.

A falha dessa forma de raciocínio é desconsiderar, em algumas circunstâncias, os benefícios alcançados até outras possibilidades surgirem. Nem sempre o que vem antes é o pior, pode ser outra possibilidade, pode ter sido a base em que se estruturam as possibilidades futuras. Se entendermos que o melhor é sempre o que está por vir, corremos o risco de não aproveitarmos o que temos, porque sempre vamos esperar o que está por vir... Quando nem sequer sabemos o que virá... Além disso, somar pode ser bem melhor do que dividir!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A sedução do discurso lógico

Hoje eu li um texto escrito por um jovem que entendeu a pouca importância de um milagre quando ele não se estende ao seu próximo. Um texto, na minha maneira de ver, bonito, bem articulado, de certa forma, piedoso. Mas, ao me aprofundar no discurso, matutando com meus botões e convidando os seus, encontro alguns argumentos que merecem uma observação cuidadosa - vejam que estou me referindo ao texto e não ao seu autor, até por não ter a menor ideia de quem é essa pessoa. 

Um trecho do texto: “Por isto abro mão dos milagres e das intervenções divinas. Não quero ter uma melhor sorte do que as pessoas que não conhecem a Deus. Não consigo mais conceber Deus me dando uma vida blindada por ele, e ao mesmo tempo as crianças da áfrica (sic) estão morrendo aos milhares de fome e aids. Considero isto um egoismo (sic) da minha parte porque por um simples designio (sic) misterioso eu tenho a proteção divina e estas crianças, que como Cristo disse, são delas o reino dos Céus, não tem esta proteção divina.” Não quero nem entrar em detalhes sobre aspectos teológicos, quero me ater ao texto. Para não parecer tendenciosa, optei pelo parágrafo inteiro, por ter a ideia explicada.

Em análise do discurso, vemos que tudo que produzimos é resultado do nosso repertório. Quem acha que criou algo novo, coitado, não sabe que apenas fez meia dúzia de escolhas, redefiniu umas palavras tomando outras, puxou daqui, esticou de lá: Voilà! Temos algo que parece novo! Mas, procure um pouco e você encontrará outras fontes de repertório similar, afinal, segundo a experiência popular, “nessa vida, nada se cria, tudo se copia”.

Lendo o texto mencionado, senti algo familiar na lógica dele: lembrei! Um filme que assisti não faz muito tempo. O título é Legion (Legião). Em um trecho do filme, Miguel e Gabriel discutem a respeito da ordem dada por “Deus” para destruir a humanidade. Miguel deveria descer e destruir uma criança que seria a esperança da humanidade, mas, questionando a ordem recebida, ele entende que deve preservar aquela vida. Miguel deixa claro que a ordem não era para ser obedecida, mas interpretada, porque “Deus” não queria que fizessem o que ele manda, e, sim, o que ele necessita. Já Gabriel insiste que a obediência a ordem de “Deus” deveria ser incondicional, inquestionável. Miguel prevalece, deixando uma mensagem de que, não importa o que foi dito, mas o que nós entendemos do que foi dito.

Uma interpretação completa daria muitas páginas, mas quero apenas considerar, rapidamente, um pequeno trecho de ambos. Tanto o texto citado como o filme trabalham com o conceito de que a preservação da humanidade - não importa a condição espiritual em que esteja - suplanta todo e qualquer outro conceito, inclusive de qualquer expressão da vontade de Deus que seja contrária a essa preservação. Se arrancarmos todas as páginas do Antigo Testamento e algumas do Novo, é possível sustentar a ideia. Digo em termos de texto! É importante entender as possibilidades de leitura, porque, antes de dizer “concordo” ou “discordo”, é necessário compreender todas as possibilidades que o texto apresenta, inclusive aquela que pode nem ser o pensamento real do autor, mas que o texto comporta na sua interpretação. Quem lê o trecho do texto ou vê o filme pode até levantar outras possibilidades de interpretação, mas elas precisam encontrar base estrutural. Copiou?!