Passeando outro dia pela blogosfera, encontrei um texto com uma parte que achei familiar. Foi a mesma afirmação feita em uma pseudo carta de um pseudo jovem que foi publicada sem o nome do autor para preservar de possíveis ataques - depois do descobrimento da homofobia parece que há uma perseguição por trás de cada elemento suspeito, do tipo religioso... vai saber!
Eis a parte identificada do texto em questão:
“[...] de fato, abro mão de ser protegido – minha solidariedade com a raça humana não me permite esperar melhor sorte do que a das crianças abandonadas, dos enfermos crônicos, dos miseráveis e vitimados pelas atrocidades dos maus. Ou Deus protege todo mundo, ou a proteção não serve como fundamento para a crença nele.”
De fato, a solidariedade com o sofrimento humano é algo para causar admiração e respeito. Vale a pena examinar mais cuidadosamente o discurso que permeia esse texto. Ao colocar em primeira pessoa, o autor chama a atenção para si e se coloca na posição de decidir a respeito da sua condição de ser ou não protegido, ainda que não afirme ser ou não alcançado pela proteção divina.
Se nós supusermos que o enunciador[1] produz o seu discurso na condição de carência material ou física, como os exemplos que são citados - abandono, enfermidade, miséria e vitimação -, podemos concluir que o texto exprime a sinceridade de uma renúncia que se comprova por fatos que leva esse enunciador a ser, em verdade, alguém que fala daquilo que vive; seu argumento para renúncia ganha força pragmática.
Porém, vamos imaginar que esse enunciador tenha seus percalços – afinal, quem na vida não os tem?! -, mas, em verdade, usufrua de vantagens que os exemplos citados não sejam em nada familiares a sua vivência, que seja ele alguém que desfrute de amor e admiração de grande número de pessoas, tenha saúde ou que se adoecer tenha os melhores médicos a sua disposição e viva em abastança, qual seria a base em que ele afirmaria dizer que abre mão de ser protegido? Não seria sua própria condição uma proteção? Uma “blindagem”? Como é essa coisa de abrir mão de algo e ainda assim continuar fazendo uso do que se abriu mão?
No final do parágrafo há o que poderia ser uma explicação para a continuidade do uso dos benefícios: “a proteção não serve como fundamento para a crença em Deus”. Também há outra afirmação de que não querer ser protegido quer dizer que “não espera melhor sorte”. Perfeito! Mas ainda está lá “abro mão de ser protegido” – abrir mão pode significar desistir de algo, também pode ser não fazer questão. Essa colocação traz a minha mente o jovem que procurou Jesus porque queria ser perfeito em suas ações, queria fazer mais. Jesus disse algo parecido com “abra mão do seu conforto e se junte a mim para viver sem os bens materiais, deixe o que você tem para os que nada têm”.
Em resumo, creio que se o enunciador está na condição de miséria, ou ele abriu mão ou aceita sua condição como ponto em comum com os demais desfavorecidos. Se não, ele deve abrir mão do que tem se realmente quer ser solidário com a humanidade que precisa do que ele tem, ou reconsiderar suas palavras...
Da minha parte, eu não tenho muito, mas me considero uma pessoa protegida por Deus, porque tive todo um histórico de abandono, mas não fiquei lá, porque o Senhor me socorreu. Não abro mão da proteção dEle, prefiro fazer o possível para estender essa proteção àqueles que ainda não a têm, partilhando o pão, o vestuário, o tempo e, principalmente, minha maior riqueza: Jesus! Que vive e reina para sempre!
[1] Que ou aquele que expõe, exprime ou declara por escrito ou oralmente (pensamentos, ideias etc.).
