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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Questões de leitura

Um dos maiores desafios para o leitor brasileiro - se não for para qualquer leitor - é aprender a interpretar textos, levando em consideração o aspecto discursivo – ou seja, o que está escondido nas entrelinhas... Ou revelado descaradamente nas linhas...

Um colunista resolveu mostrar sua opinião a respeito de palavras violentas sobre um assunto que deveria sensibilizar as pessoas, mas a sua forma de expressar deixa mais dúvida do que simpatia quanto aos seus argumentos. A menos que o leitor já esteja com opinião formada a favor do escritor.

Vejamos o título: O câncer de Lula me envergonhou[1] – Como assim? Desde quando uma doença de uma pessoa envergonha outra?! Ah! Sim. É apenas uma frase sensacionalista para despertar a curiosidade e o desejo de ler o que ele escreveu. O bom leitor já vai perceber que não haverá tanta indignação assim, já que o mais importante não é o assunto tratado, e sim a leitura.

A indignação: Senti um misto de vergonha e enjoo ao receber centenas de comentários de leitores para a minha coluna sobre o câncer de Lula. Fossem apenas algumas dezenas, não me daria o trabalho de comentar. O fato é que foi uma enxurrada de ataques desrespeitosos, desumanos, raivosos, mostrando prazer com a tragédia de um ser humano. Pode sinalizar algo mais profundo. – Aqui o leitor até se solidariza, afinal, ninguém merece ser tão enxovalhado só porque está doente. “Vergonha” e “enjôo” não seriam exatamente os sentimentos próprios que alguém descreveria diante de tal fato, mas que seja. A questão intrigante surge no trecho seguinte.

O exemplo das ações e palavras ultrajantes: Centenas de e-mails pediam que Lula não se tratasse num hospital de elite, mas no SUS para supostamente mostrar solidariedade com os mais pobres. É de uma tolice sem tamanho. O que provoca tanto ódio de uma minoria? – Não fosse o assunto tão triste, seria de chorar de rir. Que ironia é essa? Lula se tratar no SUS é uma tolice sem tamanho, que seria resultado de muito ódio de quem deseja isso? Tolice, por quê? Ele é melhor que todos os que se tratam no SUS? Foi por ódio da população menos favorecida que ele manteve o SUS?

Aspecto político: Lula teve muitos problemas --e merece ser criticado por muitas coisas, a começar por uma conivência com a corrupção. Mas não foi um ditador, manteve as regras democráticas e a economia crescendo, investiu como nunca no social. – Qual era o assunto mesmo? Ah, tá... Ele estava falando de comportamento humano diante de uma tragédia. Por pouco, pensamos que era uma avaliação política...

O assunto retorna?: No caso de seu câncer, tratou a doença com extrema transparência e altivez. É um caso, portanto, em que todos deveriam se sentir incomodados com a tragédia alheia. – “Transparência” e “altivez”... Ele fala da doença ou do comportamento político? Quanto ao “todos deveriam se sentir incomodados com a tragédia alheia”, já deu para perceber que “todos” é um número muito grande para um país que revela desigualdade em muitas áreas, especialmente no sentido de valor do ser humano... Precisamos mais do que ideias para mudar isso!

Pegando pesado: Minha suspeita é que a interatividade democrática da internet é, de um lado um avanço do jornalismo e, de outro, uma porta direta com o esgoto de ressentimento e da ignorância. – Esse final é apoteótico. De fato, há muito lixo na internet, escrever opiniões agressivas é só uma ponta do iceberg. Mas quem se importa quando o ofendido não é da “elite”?!

Propaganda do propósito: Isso significa quem um dos nossos papéis como jornalistas é educar os e-leitores a se comportar com um mínimo de decência. – Seria esse o objetivo desse artigo? Parece que não, porque um bom número de leitores se revoltou com os comentários, que em lugar de educar, descarregou, educadamente, a raiva pelo mau comportamento desses que precisam de educação.

Crédito: Gilberto Dimenstein, 54, integra o Conselho Editorial da Folha e vive nos Estados Unidos, onde foi convidado para desenvolver em Harvard projeto de comunicação para a cidadania. – Essa informação é uma faca de dois gumes: por um lado, coloca o autor como alguém importante – afinal ele é o cara que está em Harvard, ensinando cidadania, sabe do que fala; por outro lado, deixa o leitor pensando por que ele está lá quando o Brasil está tão “desconfigurado” no exercício da cidadania.

Como disse o sábio, elas justificam ou condenam...


[1] Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gilbertodimenstein/999070-o-cancer-de-lula-me-envergonhou.shtml.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Vestir a camisa

“Vestir a camisa” é uma expressão muito comum, especialmente se referindo à relação do empregado para com a empresa em que trabalha. “Vestir a camisa” quer dizer “comprometer-se com”.  E para que isso aconteça é preciso que o empregado se sinta como parte de um time. Se isso não acontece, a situação já tende a se complicar. É preciso acreditar que faz parte do grupo e compreender o objetivo de tanto esforço. Um fator complicador é que, algumas vezes, a empresa tem um perfil que não se encaixa no empregado. Para manter o time no foco é preciso que a empresa selecione pessoas com o perfil que seja adaptável ao seu plano de trabalho. 

Um exemplo que pode ilustrar a ideia do perfil empresa/funcionário é o trabalho das equipes de voo das companhias aéreas. Até algum tempo atrás era comum a formalidade nos comunicados feitos durante a viagem. A Webjet, ao contrário disso, entrou no mercado com uma proposta de descontração, fazendo comunicados ou dando instruções com uma mescla de humor, porém, não são todos os funcionários que conseguem encontrar o tom que a empresa se propõe a assumir. Outros, porém, conseguem se superar, como foi o caso de um comandante que saiu com estas pérolas em um voo de São Paulo para o Rio de Janeiro:

“Previsão de pequena turbulência de vento vindo da direita para esquerda, suficiente apenas para embalar seu soninho”;

O Rio de Janeiro está com o céu ligeiramente nublado, com nuvens escuras, também conhecidas como poluição”;

Falando sobre alguns pontos turísticos do Rio de Janeiro: “a Pedra da Gávea é o lugar onde pessoas pulam de asa delta, parapente e, de vez em quando, alguns malucos pulam sem nada”;


Sobre a igreja da Penha: "O carioca 'e(x)perto' faz uma promessa e, se alcançar o pedido, manda a sogra subir de joelhos";

“A temperatura de fora da aeronave está em 50 graus Celcius negativos. Aconselho a que permaneçam dentro do avião”.

O discurso descontraído em um ambiente que gera tensões para alguns é uma estratégia interessante, mas nem todos os funcionários responderão à altura do esperado, por questões de personalidade ou outras. Aqueles que têm uma veia humorística acentuada, no entanto, se sentirão bem à vontade usando seu verdadeiro potencial, o que é bem mais interessante do que se meter em uma “camisa de força”...

sábado, 19 de novembro de 2011

Vivendo e aprendendo...

Se eu dissesse para alguém “Minha derrota é certa!”, provavelmente a pessoa olharia para mim com uma cara de “quanto pessimismo”. O fato é que a mesma frase poderia ser uma expressão de otimismo... Explico!

Outro dia um amigo pediu para que eu verificasse a frase “Dada por finda a nossa derrota”, da Canção do Marinheiro[1] – sem consultar alguma fonte, apenas entendi que a frase queria dizer que a partir daquele momento não haveria mais perda, apenas vitórias... Ledo engano! Meu amigo deu a dica e pediu que eu verificasse a origem da palavra. Lá estava!!! 

Etimologia da palavra “derrota”:
de- +rota 'caminho', do fr. route (1121-34)'via, caminho, rota',der. do snt. lat. rupta (via) 'caminho rasgado, desbravado', donde 'caminho que se costuma seguir, rota', red. a rupta, fem.substv. do lat. rúptus,a,um,part.pas. de rumpère 'romper'; o der. vern. 1derrota é f.divg. de 2derrota, esta com orig. no fr.ant. desro(u)ter/desruter 'debandar, pôr em fuga', do lat. dirúptus,a,um 'quebrado, desordenado', part.pas. do v.lat. dirumpère 'romper, quebrar, desorganizar'; ver romp-[2].

É isso: Nossa derrota é certa!!! Ou não...


[1] Letra: Segundo Tenente (Refº) (Marinha do Brasil) - Benedito Xavier de Macedo
[2] Houaiss online.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Reclamação de um ateu

Recebi dois links de vídeos que uma leitora me enviou para saber minha opinião. Um deles, eu ouvi com sacrifício, porque eu tenho grande dificuldade de lidar com radicalismos, de qualquer origem, mas é sempre proveitoso analisar opiniões, confrontar nossas próprias ideias e tirar o que, na opinião do receptor, for bom. O vídeo era um desabafo de um ateu indignado porque um prefeito instituiu o Ensino Religioso nas escolas de sua cidade.

Há uma ideia errada que circula na sociedade, que é achar que todo ateu é [1]inteligente, e que é por causa do excesso de inteligência que ele não crê em Deus. Como, para algumas pessoas, o conceito de Deus não é inteligível, não cabe em uma “mente superior”. Eu arriscaria dizer que o próprio ateu pode pensar que é o supra summu do conhecimento e, por isso, eliminou do seu repertório essa coisa prosaica de fé. É claro que não é o excesso de inteligência que impede uma pessoa de aceitar crer ou não crer. Há um conjunto de fatores que contribuem para uma pessoa fazer essa escolha, que pode ter forte participação da inteligência... Ou não! Também diria Caetano que “Narciso acha feio o que não é espelho”[2]. Fatalmente o ateu vai pintar o religioso de “diabo” e o religioso simplesmente eliminará a possibilidade de existência do ateu. É isso que torna o verso de Caetano universal: reflete a natureza humana ou, talvez, desumana. 

Não indico o tal link porque o autor trata com desrespeito qualquer pessoa que não concorde com ele. O interessante do vídeo é o fato do autor sugerir que aceitaria o ensino religioso nas escolas se fosse levado como história das religiões. É singela a forma inocente como ele faz a sugestão, porque até a pessoa com a menor carga de inteligência pode saber que não há discurso sem intenção. Quem faz a história é o historiador e não os fatos. Tanto é assim que, no passado de muitos de nós, Pedro Álvares Cabral era o descobridor e praticamente “o salvador” do Brasil, Tiradentes era a imagem da salvação... E por aí vai. Hoje, outros historiadores contam outras histórias... Mas sempre é possível que haja grupos ou pessoas que trabalhem pela informação, é difícil encontrar, porém, tudo é possível ao que crê. Um bom exemplo disso é a revista História das Religiões, publicada recentemente pela Editora Abril; também o sociólogo francês Émile Durkheim apresenta ideias interessantes de seus estudos sobre o fenômeno religioso.

Na minha experiência de vida, encontrei dois tipos de ateus: aquele que tem algum problema não resolvido com a questão religiosa, revolta pelo que chamaria de ausência de Deus em momentos difíceis de sua vida - e esse tipo, em geral, fala de religião com desprezo; e o outro tipo é o bem resolvido, esse é o tipo de pessoa que lida bem com sua maneira de pensar, não levanta bandeiras, simplesmente tem opinião firme. De qualquer maneira, o ateu é uma pessoa de extrema fé, porque é preciso ter muita fé para olhar as leis da natureza, olhar a si mesmo, não ter a menor ideia de onde veio tudo isso nem para onde vai e mesmo assim não cogitar a possibilidade de uma inteligência superior no comando disso tudo – mesmo que a explicação para essa postura seja a podridão das sociedades.

Sobre a podridão das sociedades, precisamos reconhecer que a direção de uma nação está principalmente nas mãos do governo que gera recursos para projetos, cria leis etc. e nas mãos da mídia que diz o que quer, como quer, no momento que quer. O povo recebe tudo, a maioria assimila porque é bombardeado de todos os lados e fica valendo o “Se não posso vencê-los, junto-me a eles”. O resultado disso em uma nação onde impera o mau caráter é uma sociedade perversa. Todos os sistemas ficam corrompidos: sistema de saúde, político, educacional, religioso... É comum atacar os sistemas como se eles se fizessem sozinhos. Sabemos que não é assim. Sabemos que pessoas criam sistemas corruptos. Os discursos estão sempre atacando os sistemas, e o que melhora? Nada. É preciso corrigir as fontes: governo e mídia.

O vídeo em questão também mostra algo muito sério: a manifestação da intolerância. O jovem fala sobre intolerância religiosa com uma postura e um discurso constituído pela intolerância. Certamente muitos irão gostar, apoiar e atirar mais algumas pedras nos “loucos religiosos”. O rapaz chega a dizer que se uma família ensinasse um credo para seus filhos deveria receber visita do conselho tutelar – melhor nem comentar isso. Como bem disse alguém em um blog a respeito do modo pragmático de resolver as coisas: “A verdade não tem mais de ser buscada; ela se encontra em nós mesmos pronta para ser usada e sem objeção alguma”[3]. Que pena para quem pensa e vive assim, porque só tem a si mesmo como referência. O mundo de uma pessoa só é muito pequeno... E o mundo de muitas pessoas há de enfrentar suas diferenças...



[1] 1. faculdade de conhecer, compreender e aprender
2. conjunto de funções psíquicas e psicofisiológicas que contribuem para o conhecimento, para a compreensão da natureza das coisas e do significado dos fatos
3 Rubrica: psicologia.
   capacidade de apreender e organizar os dados de uma situação, em circunstâncias para as quais de nada servem o instinto, a aprendizagem e o hábito; capacidade de resolver problemas e empenhar-se em processos de pensamento abstrato
(Houaiss on line)
[2] Música - Sampa.
[3] http://suprasummu.blogspot.com/ - consultado em 01 abr 2011.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Sem texto e sem contexto

Já se deparou com uma situação em que um assunto está em pauta e alguém faz um comentário totalmente “nada a ver”?! Foi exatamente isso que fez a antropóloga Debora Diniz, professora da Universidade de Brasília e membro da diretoria da Associação Internacional de Bioética ao dar sua opinião sobre um assunto que se tornou notícia em todo o mundo.

*Uma bibliotecária italiana de 57 anos e um aposentado de 70, casados há 21 anos, decidiram ter um bebê com óvulos doados, após anos tentando uma gravidez, sem sucesso. Há um ano e sete meses, nasceu o bebê. A corte de Turim (Itália) entendeu que eles são velhos demais e não têm condições de criar, por isso colocaram a criança para adoção. O caso repercutiu porque a discussão gira em torno dos limites da maternidade/paternidade utilizando as novas tecnologias. Os juízes alegaram que eles foram "egoístas e narcisistas" e que "Eles nunca pensaram sobre o fato de que a filha poderia ficar órfã muito jovem ou seria forçada a cuidar de seus pais idosos na idade em que os jovens mais precisam de apoio" – eu só não entendi porque esperar a criança ser gerada para expressar essa opinião... 

Diante da associação feita entre gravidez tardia e egoísmo, a tal professora sai com essa: "é um valor cristão sobre a reprodução". Como assim?! Nem vale discutir a questão do casal, porque a própria lei do país não permite doação de óvulos, mas essa opinião da antropóloga é totalmente fora de contexto. Sendo o manual de valores cristãos a Bíblia, a professora perdeu a parte em que Deus comunicou a uma mulher de 100 anos que ela seria mãe. Tudo bem que não precisou de doação de óvulos, afinal, sendo Senhor da natureza, o próprio Deus interveio para possibilitar o fato. Mas uma coisa fica clara: o fator idade nunca foi problema para maternidade/paternidade segundo os valores cristãos. 1O casal Abraão e Sara é o melhor exemplo disso!


* Notícia em http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/997439-pais-velhos-perdem-guarda-de-bebe-na-italia.shtml - 27 de outubro de 2011.
1 Gênesis 21

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Games of thrones - breve leitura

A literatura não tem como seu objetivo principal a informação, a despeito disso, produz conhecimento por ser um meio de comunicação que reflete a sociedade em que os textos são produzidos. Mesmo quando o texto retrata uma época diversa daquela em que se localiza o texto, os valores se mesclam. A literatura é um meio de diversão – embora algumas escolas insistam em transformar em instrumento de tortura. E no meio da diversão há muitas informações que são assimiladas de forma intencional e não intencional. 

A produção literária contemporânea tem insistido fortemente na espiritualidade como temática[1], seja de forma ostensiva ou discretamente. O grande problema da inserção de valores do campo espiritual é quando isso é feito de forma que o leitor assimila o valor sem percepção real do que captou. A dificuldade de interpretar o texto é a grande vilã dessa história. Nesse sentido, a Análise do Discurso[2] contribui imensamente para fazer o leitor “cair na real”. O que ele leu de fato? O que está escondido entre as linhas do texto que, embora revelado, é tão obscuro?

Um exemplo interessante é encontrado em A Song of Ice and Fire[3] (As Crônicas de Gelo e Fogo – livro dois. Os trechos descrevem uma situação entre o rei – Lorde Stannis; o conselheiro do rei – meistre Cressen; e uma mulher feiticeira conselheira da esposa do rei – Melisandre. O rei, de forma inesperada, ridiculariza seu conselheiro em um banquete e se posiciona de acordo com os conselhos da feiticeira. O meistre Cressen, por sua vez, decide colocar veneno no vinho da feiticeira e partilhar a taça com ela. Ambos deveriam morrer ao ingerir o vinho, mas apenas ele morre, mesmo ela tendo partilhado da taça com ele. Interessante notar como a situação é tecida:

“Melisandre de Asshai[4], feiticeira, umbromante* e sacerdotisa de R’hllor, o Senhor da Luz, o Coração de Fogo, o Deus da Chama e da Sombra. Melisandre, cuja loucura não se podia deixar espalhar para lá de Pedra do Dragão.” (p. 19)

“Como sempre, trajava vermelho dos pés à cabeça, com um longo vestido solto de seda esvoaçante, brilhante como fogo, com longas mangas pendentes e profundos cortes no corpete, pelos quais se entrevia um tecido mais escuro, vermelho-sangue, que usava por baixo. Tinha em torno da garganta uma gargantilha de ouro vermelho, mais apertada do que qualquer corrente de meistre[5], ornamentada com um único grande rubi. O cabelo não era de tom alaranjado ou cor de morango dos ruivos comuns, mas de um profundo acobreado lustroso que brilhava à luz das tochas. Até seus olhos eram vermelhos… Mas a pele era lisa e branca, imaculada, clara como leite. E era esguia, graciosa, mais alta que a maior parte dos cavaleiros, com seios fartos, cintura estreita e um rosto em forma de coração. Os olhos dos homens que a encontravam não se afastavam facilmente, nem mesmo os de um meistre. Muitos diziam que era bela. Mas não era. Era vermelha, e terrível, e vermelha.” (p. 21).

“Os olhos de Lorde Stannis estavam na sombra das suas pesadas sobrancelhas, sua boca, apertada, enquanto o maxilar trabalhava em silêncio. Rangia os dentes sempre que se zangava.
– Bobo – ele rosnou por fim –, a senhora minha esposa ordena. Dê o elmo a Cressen.
Não, pensou o velho meistre, este não é você, não é o seu jeito, sempre foi justo, sempre duro, mas nunca cruel, nunca, não compreendia a gozação, assim como não compreendia o riso.” (p.23)

“Cressen tentou responder, mas as palavras ficaram presas na garganta. Sua tosse transformouse num terrível assobio agudo quando tentou inspirar. Dedos de ferro apertaramse em torno do seu pescoço. Quando caiu de joelhos, ainda balançava a cabeça, negandoa, negando seu poder, sua magia, negando o seu deus. E os guizos tiniam nos chifres, cantando tolo, tolo, tolo, enquanto a mulher vermelha o olhava com piedade, e as chamas das velas dançavam nos seus olhos tão... tão vermelhos.” (p. 24).

Os trechos transcritos podem ser lidos em três minutos. Mas para entender o que, de fato, seu cérebro registrou leva algumas horas. Algumas questões podem produzir reflexão e encaminhar o leitor para algumas respostas:

  1. Na pág. 19, as descrições da feiticeira incluem a quem ela serve em sua visão espiritual. Em nenhum momento é dito um nome específico, apenas termos que identificam o tal ser. Esses termos fazem intertextualidade com informações que levam ao nome por trás dos termos: “Senhor da Luz” – a Bíblia associa a luz ao Deus que se revela por meio de suas páginas e aos seus seguidores, mas não é esse Deus uma vez que mais adiante associa à sombra. O termo, então, pode ser associado a “Satanás se disfarça em anjo de luz[6]”. “Fogo” e “chama” são elementos que se complementam para a ideia de inferno, assim como “sombra” e escuridão. De quem, partindo desses aspectos, o texto realmente faz referência?

  1. Nas págs. 21 e 24, o vermelho[7] é extremamente significativo, ainda mais pela insistência na cor. Para compreender a representatividade da cor nesse texto não basta deduzir, é preciso verificar que a cor toma diversos sentidos, dependendo do contexto, o vermelho pode significar a Coca-Cola, a Ferrari ou o diabo. Para entender o uso da cor aqui é preciso se reportar aos aspectos culturais e contextuais. Para buscar a ideia do texto, é interessante ler a seguinte explicação:

“Quando claro, representa o lado masculino e quando escuro, o feminino, noturno, secreto; e os mistérios da vida. Diz-se que ele seduz, encoraja e provoca; alerta, em forma de sinais - como os de trânsito -, proíbe e inquieta. Convida a prostíbulos, transgredindo proibições e atiçando pulsões sexuais e de instintos passionais. Acredita-se que uma mulher vestida de vermelho jamais seria vista como inocente. Representante da carne e da possessividade.

O vermelho simboliza o fogo central, o ser humano e a terra. Para a alquimia, é o homem universal e o sangue da imortalidade. O chamado vermelho sagrado é a cor da alma, do coração, do esoterismo e da ciência. Relacionado a mares e oceanos, nomeia-os sob o mesmo simbolismo - o ventre, no qual vida e morte se transmutam. Símbolo de vida e morte, é a cor da guerra e da devastação (fogo e sangue), e a cor da salvação (Cruz Vermelha)”. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Vermelho)

A associação com morte fica mais clara no contexto, porque há uma tentativa de assassinato e suicídio; e o conselho da mulher para o rei é que ele vá à guerra.

  1. O trecho da pág. 23 precisa ser entendido pelo contexto – a informação sobre a mulher leva a concluir que é discípula de Satanás, e a esse ser é atribuída a capacidade de possessão do corpo de alguém; a expressão “ranger de dentes” também contribui para o efeito de sentido, uma vez que essa é a expressão utilizada na Bíblia para descrever o estado dos que vão para o inferno - lugar de choro e ranger de dentes. Assim, quando o velho mestre pensa “este não é você, não é o seu jeito, sempre foi justo, sempre duro, mas nunca cruel, nunca, não compreendia a gozação, assim como não compreendia o riso”, não seria uma sugestão de que o rei está possuído por um ser maligno?!

  1. No último trecho, da pág. 24, há a descrição da morte do velho. O veneno fez efeito nele, mas não fez efeito na feiticeira. O ponto máximo desse trecho é a declaração de poder sobre a morte atribuído ao ser maligno que é objeto da fé daquela mulher. O velho morre achando que o Diabo não tem poder, não existe, e a repetição da música do bobo da corte é expressa em “tolo, tolo, tolo”. Não estaria o texto aí deixando clara a tolice daquele que nega o que está bem na sua frente?! O que faz a sociedade atual diante da feitiçaria, da destruição dos valores sociais?! A resposta para essa última pergunta é: “Eu nego, eu não vejo...”.

Isso é só um pouco do que pode ser extraído dos trechos acima. Há muito mais... No próximo texto, pretendo abordar um pouco mais dessa questão da espiritualidade presente na literatura contemporânea.


[1] Tenho trabalhado em uma pesquisa sobre esse assunto e espero partilhar mais alguns textos aqui no blog.
[2] Análise do discurso ou análise de discurso é uma prática e um campo da lingüística e da comunicação especializado em analisar construções ideológicas presentes em um texto. (http://pt.wikipedia.org/wiki/An%C3%A1lise_do_discurso)
[3] MARTIN, George R. R. A fúria dos reis; trad. Jorge Candeias. – São Paulo : Leya, 2011.
[4] Cidade portuária que faz fronteira com a Terra das Sombras. Cidade notável por exportar diversas mercadorias, dentre elas Obsidiana. Rumores contam que Feiticeiros, Arcanos e Bruxos atuam livremente em Asshai. (http://www.edenpop.com/literatura/dicionario-de-as-cronicas-de-gelo-e-fogo)
[5] Do inglês Maester, uma corruptela de Mestre (Master). Titulo para os academicos e estudiosos que se formam em diversas areas da ciencia e ocultismo. (http://www.edenpop.com/literatura/dicionario-de-as-cronicas-de-gelo-e-fogo)
[6] II Cor. 11.14
[7] A palavra “vermelho” tem sua origem no latim vermillus, que significa "pequeno verme", remetendo-se à cochonilha, inseto do qual é extraído o corante carmim utilizado em tintas. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Vermelho)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Sobre o perdão...

Quando escrevemos filosoficamente, devemos ter o cuidado de fazer perguntas ao texto para nos certificarmos de que realmente expressamos nosso pensamento e não apenas formulamos frases de efeito. Nós precisamos também saber quem somos para que nos posicionemos de acordo com nosso sistema de valores; isso é algo que tenho insistido, exatamente por perceber que algumas afirmações não parecem andar junto com o papel social que as pessoas desempenham. 

Exemplo disso foi um texto escrito por uma pessoa que, com base nas informações que tenho, é cristã. Dizia o seguinte: “Não chego ao cúmulo de oferecer a outra face, que isso é coisa pra santo. Perdoo, mas me blindo. Se aprontou uma vez, aprontará outra. Fico na minha, me fortaleço e trato de viver cada dia melhor – nada irrita mais nossos inimigos”.

Fica claro que a pessoa está falando sobre o perdão. Nesse assunto, temos duas posições a tomar: uma baseada exclusivamente em nossa disposição de ânimo sobre a questão e a outra baseada no ensino cristão. A primeira é fruto de nosso repertório, que pode ter ou não influência cristã; a outra é a aceitação integral dos ensinos de Jesus. Quando a pessoa se posiciona como cristã e expressa uma opinião diversa daquela ensinada por Jesus e registrada nos evangelhos, temos uma grande contradição. Foi o que notei no texto citado.

A primeira frase diz “Não chego ao cúmulo de oferecer a outra face, que isso é coisa pra santo.” – ao dizer que oferecer a outra face seria o “cúmulo[1]”, além de colocar o fato de oferecer a outra face como um exagero, ainda diz que não faria tal coisa. A segunda frase confirma a anterior “Perdoo, mas me blindo[2]”. Essas afirmações vão de encontro ao ensino cristão expresso em Mateus 5.38-48[3]. Não haveria qualquer problema de alguém pensar assim, o problema é, se posicionando como uma pessoa cristã, bater de frente com o próprio fundador do pensamento cristão: Jesus Cristo.
 
A terceira frase é uma afirmação, no mínimo, preocupante: “Se aprontou uma vez, aprontará outra.” – Por um lado é uma afirmação redundante se pensarmos que estamos sujeitos a errar e voltar a errar, afinal, já foi dito que “herrar é umano”(sic); por outro lado, fica subentendido que, ao afirmar isso, a própria pessoa jamais cometeu erro algum contra outras pessoas. Sim, porque o rigor do tratamento indica que a própria pessoa não dá mais chance a quem errou; dificilmente alguém gostaria de ser tratado com esse rigor. No final do texto: “Fico na minha, me fortaleço e trato de viver cada dia melhor – nada irrita mais nossos inimigos.” – O texto parece indicar que a pessoa que comete um erro contra outra se torna inimiga. Se tomarmos isso como princípio para nossas vidas, viveremos isolados; começaríamos eliminando nossa família. A menos que apliquemos isso apenas com os de fora de nossa família. Mas no trabalho ou em qualquer outro ambiente também seria um problema. Sempre precisamos uns dos outros em algum momento... Mesmo aquelas pessoas que já aprontaram conosco! E quem nunca errou que atire a primeira pedra!!!



[1] Excesso, acréscimo não admissível. (Houaiss versão on line)
[2] Tornar(-se) resistente ou imune a ações ou influências danosas; proteger(-se), guardar(-se). (Houaiss versão on line)
[3] Bíblia